Áudio atribuído a Faynara indica intenção de usar servidores em campanha eleitoral
Um áudio atribuído à ex-secretária de Indústria, Comércio e Qualificação Profissional, Faynara Merege, aponta que servidores teriam sido orientados a atuar na campanha eleitoral dela, inclusive com menções à “dupla jornada”, manutenção de agenda política e articulações após a descompatibilização do cargo na Prefeitura de Ponta Grossa. O Fornazari.com entrou em contato com Faynara, mas até a publicação da reportagem não houve retorno. Caso haja, o posicionamento será incluído.
RESUMO
Gravação detalha reunião interna e levanta possíveis conflitos com legislação eleitoral.
- Falas indicam convocação de equipe da secretaria para campanha
- Trechos sugerem continuidade de articulação política após saída
- Situação pode confrontar decreto municipal e normas federais
- Ouça o áudio na íntegra ao fim da reportagem
A gravação é de uma reunião que antecedeu a saída de Faynara Merege, filiada ao Partido Novo, do cargo de secretária municipal. No encontro, ela revela aos servidores presentes, tanto comissionados como concursados, que vai deixar o governo municipal para ser candidata à deputada federal. Pela lei eleitoral, qualquer secretaria postulante a cargo eletivo precisava deixar o posto, em 2026, até o último dia 04 de abril.
No áudio atribuído a ela, a então gestora apresenta a intenção de utilizar a estrutura de pessoal da pasta para compor a equipe de pré-campanha à Câmara Federal.
Na gravação, Faynara teria convocado os ocupantes de cargos de confiança para uma atuação que ela mesma denominou como "dupla jornada".

Pelo áudio, é possível perceber que proposta é apresentada de forma direta aos subordinados logo após ela revelar a saída do cargo de secretária: "Agora vem a parte ruim da história, que além de vocês serem minha equipe aqui na secretaria, vocês serão minha equipe também de campanha, tá bom?".
Segundo o áudio, a ex-secretária teria a intenção de iniciar reuniões de planejamento eleitoral dias após a exoneração, dizendo que os servidores "vão fazer dupla jornada, ok?".
A gravação foi apresentada primeiramente pelo Blog do Dudu. O Fornazari.com teve acesso ao áudio na sequência.
Possível violação de regras eleitorais federais e municipal
A conduta exposta no áudio confronta normas federais e municipais. De acordo com a Advocacia-Geral da União (AGU), é expressamente proibido "usar os serviços dos agentes públicos para comitês de campanha eleitoral (...) durante o horário de expediente normal".
A ideia de usar servidores durante a jornada na Prefeitura ganha materialidade quando Faynara cita que vai continuar tocando os assuntos da secretaria e que vai participar de encontros com lideranças no setor. A então secretária afirma que um determinado servidor - o nome vai ser preservado pela reportagem - seria "os olhos e ouvidos" dela na secretaria.
Então, uma servidora questiona se as próximas reuniões da pasta deveriam ser agendadas para este funcionário, algo que Faynara refuta: "Então não, você marca, continua marcando para mim normal (...) Aí só tem que mudar o, né, o nome, que se apresenta. A proposta sugere que os servidores continuariam organizando a agenda de visitas e reuniões com lideranças do setor produtivo, apenas alterando a forma como ela seria apresentada para evitar problemas legais imediatos.
Em um trecho do áudio, Faynara também afirma que "embora eu não esteja aqui mais em corpo presente, eu estarei de alma, né, continuar conversando com vocês e vendo o que que tá sendo feito, o que que tá sendo... o que que não está sendo feito, enfim", numa indicação de que pretendia continuar administrando as ações da secretaria informalmente, o que pode indicar uma ação de burlar a descompatibilização e continuar com influência na máquina pública.
Também há menção à possibilidade de reuniões fora do ambiente institucional: “Se tiverem com dúvida e tudo mais, a gente pode fazer reunião, ou eu venho aqui ou a gente marca em algum lugar. Enfim, para alinhar” as demandas da secretaria.
A eventual tentativa de fazer servidores trabalharem simultaneamente na campanha eleitoral também confronta recente decreto publicado pela Prefeitura de Ponta Grossa, apresentado em reportagem aqui do Fornazari.com.
O Decreto nº 26.429, publicado pela Prefeitura de Ponta Grossa em 1º de abril de 2026, veda a realização de "atividades político-eleitorais durante o horário de expediente" e proíbe qualquer forma de "pressão, promessa de benefício ou exigência de contribuição com finalidade eleitoral, independentemente de vínculo hierárquico".
A reação de servidores após os pedidos
As informações da saída da secretaria e a convocação para o trabalho eleitoral geraram expressões visíveis dos servidores notadas pela própria Faynara. No começo da conversa, ela chegou a dizer que "a cara do [cita o nome de um servidor] é impagável" .
Na sequência, após a ex-secretária perguntar se havia dúvidas sobre o que fora dito, e pairar um momento de silêncio no diálogo, uma servidora diz: "Deixar eles, eles pensar um pouco. Eles estão uma cara de desespero, daí daqui a pouco eles aparecem as perguntas (sic)". Então, outro pessoa diz: "Daqui a pouco piora", e Faynara repete: "Daqui a pouco piora".
Em seguida, um servidor indica que seria necessária uma reunião pessoal com os servidores: "A gente tem que conversar individual para você ver o que que você quer da minha parte".
No áudio atribuído à ex-secretária, ela também teria pedido para os servidores se preparem porque uma campanha eleitoral é o "submundo"e admitido ser "controladora". Além disso, indicado que é a equipe que precisaria resolvesse as questões práticas enquanto ela se dedicaria a "sorrir e pedir voto".
O que mais dizem as legislações?
Prefeitura de Ponta Grossa publicou recentemente o Decreto nº 26.429/2026, que estabelece condutas vedadas a agentes públicos durante o ano eleitoral. O texto proíbe, entre outros pontos:
- A realização de atividades político-eleitorais durante o horário de expediente;
- O uso da estrutura pública para fins eleitorais;
- A cessão de servidores para campanhas;
- Qualquer forma de pressão ou mobilização com finalidade eleitoral;
O decreto é baseado na Lei Federal nº 9.504/1997 e em normas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e prevê responsabilização administrativa, civil e penal em caso de descumprimento.
Já a Advocacia-Geral da União (AGU) é categórica ao afirmar que é proibido usar os serviços de agentes públicos para comitês de campanha eleitoral durante o horário de expediente normal.
De acordo com a AGU, agentes públicos só podem participar de campanhas sob duas condições estritas: fora do horário de trabalho e sem o uso de recursos públicos.
A AGU esclarece que a regra se aplica a qualquer pessoa que exerça mandato, cargo, emprego ou função, tanto de forma temporária ou sem remuneração, quanto servidores concursados ou comissionados.
As diretrizes da AGU reforçam a gravidade das consequências para quem pratica essas condutas vedadas:
- Sanções: As punições podem incluir multas, cassação do registro ou do diploma e a inelegibilidade por um período de 8 anos.
- Responsabilidade Antecipada: A AGU ressalta que atos praticados mesmo antes do período eleitoral oficial podem ser considerados abusivos ou em desacordo com as normas.
A legislação, conforme destacado pela AGU, visa assegurar a igualdade de condições na competição eleitoral e prevenir o abuso do poder político.
Outros pontos do áudio
Outro trecho do áudio revela que Faynara Merege teria proferido ofensas contra a sucessora, Tônia Mansani, chamando-a de "burra, duvido que ela vai conseguir tocar metade das coisas que tá ali".
Faynara também revela um dos objetivos de ser pré-candidata a deputada federal. "É para bater no Sandro (sic.), né, que é o atual deputado da cidade". Filiada ao partido Novo, ela também contou que não iria sair candidata, mas que "o grupo aqui da prefeita entendeu que eu deveria lançar essa candidatura".
Ouça o áudio na íntegra
O Fornazari.com disponibiliza o áudio da íntegra da reunião entre Faynara Merege e os servidores. Em determinados momentos da gravação, a reportagem optou por usar efeitos de som para encobrir as citações de nomes de servidores, com o intuito de preservar a identificação deles.
Além disso, no momento em que os funcionários falam, a reportagem distorceu a voz com o mesmo objetivo. Em alguns momentos, quando há sobreposição de falas, a distorção afeta parcialmente a voz da ex-secretária Faynara, sem comprometer o contexto.